A terra que a noite fecha,
O sol a abriu e aqueceu.
Coração que se não queixa
É coração que morreu.
Porque o sol volta ao que deixa
E a ninguém o que perdeu.

À haste tornam as flores,
E são todas como iguais,
Mas não há iguais amores.
A nós não tornamos mais.
Somo nós, nós, os verdores
(E só vós, hastes, ficais).

O sol vem todos os dias,
Vê a terra que deixou.
Ah, mas estas alegrias
Não são as que alumiou.
Cobre a terra só vidas frias
A que ele crê que voltou.
Tudo aquilo que não somos
Para nós é sempre igual.
Colhemos os mesmos pomos.

28 - 11 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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