Silêncio. Deixa-me pensar.
Há um sonho em mim que me prendeu,
Um que começa a começar
Aquém da terra e além do céu.
Deixa-me ser nem teu nem meu.
Deixa-me só não sossegar.
 
A maravilha da distância
É feita de mar largo e azul.
Há sobre o perto a irreal fragrância
De um campo aberto sobre o sul.
Meu coração actual é êxul,
Meu ser cativo é livre de ânsia.

Não sei quem foi que ali me disse
Palavras que não sei contar.
Foram de anónima ledice.
Silêncio. Deixa-me pensar.
Não tenho amor para te dar.
Minha alma jovem tem velhice.

27 - 3 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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