Canta-me, canta, sem parar,
Sem nada querer conseguir,
Uma canção que faça sonhar...
      Sem fazer sentir...

Estou como se tivesse pena.
Não conheço ninguém no mundo.
Canto que a noite está serena
E qualquer história é amor profundo...

Tudo serve.., O luar, o rio,
A barquinha que está a boiar...
Tudo menos este fastio
De desejar e de pensar...

Canta, não queres, bem sei... Nada...
Deixa-me desejar não ser
Com a alma leve e descansada...
      Dormis, vestígios do saber?

26 - 6 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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