Emerjo, vago, dum dormir profundo
E, mal desperto para a alma e o dia,
Um sonho de conversa me inebria
Com um amigo, □

Acordo mais... É um morto que confundo
Com quem inda ontem, que é há um dia, eu via.
Hoje que longe até da fantasia!
Que mundo é este, que é o mesmo mundo?

Que porta se fechou num só momento
E entre a realidade e o pensamento
Pôs um abismo-ausência que me assombra?

O que é que falta ao que conheço e faço?
Em que sombras me envolvo e entrelaço?
E eu mesmo, eu mesmo, quanto sou de sombra?

11 - 4 - 1925

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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