Ali não havia electricidade. 
Por isso foi à luz de uma vela mortiça 
Que li, inserto na cama, 
O que estava à mão para ler — 
A Bíblia, em português, porque (coisa curiosa), eram protestantes. 
E reli a Primeira Epístola aos Coríntios. 
Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província 
Fazia um grande barulho ao contrário, 
Dava-me uma tendência do choro para a desolação. 
A Primeira Epístola aos Coríntios... 
Relia-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima, 
E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim... 
  
Sou nada... 
Sou uma ficção... 
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo? 
«Se eu não tivesse a caridade»… 
E a soberana voz manda, e do alto dos séculos, 
A grande mensagem com que a alma é livre... 
«Se eu não tivesse a caridade»…
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...

 

20 - 12 - 1934

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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