Chora pela última das coisas,
Pelo adeus que de todas vem,
Como se só passassem os olhos
Nas coisas vivas que permanecem.

Chora pelos espíritos nobres
Que foram, qual espuma se esgueira;
Chora pela beleza dos corpos
Agora menos do que poeira.

Chora pelas mínimas ninharias
Da nossa vida, que delas feita;
Por cada sonho, apenas sonhado,
Por cada esp’rança, logo desfeita.

Chora por reinos e por nações
Apenas sonhos e já passados;
Pelos credos e religiões,
Pelos ídolos, abaixo lançados.

Embora sua glória fosse vil
E desejada a destruição,
Contudo sabemos que existiram,
Existiram e não mais virão.

Chora por todas as alegrias,
Por muitos desgostos, no passado:
Um dia deseja o coração
Que tudo pudesse ter voltado.

Chora por tudo o que se foi
E pelas coisas que ainda são,
Pois, ao vê-las, o coração sabe
Que também essas não durarão.

Com tudo o que se passa se partilha
Um pedaço do nosso sentir:
Uma lágrima pelo que partiu,
Um suspiro pelo que irá partir.

1907

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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