Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
    Te afastas de vivê-la?

Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
      Gozas menos que ganhas.

Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
      De □

Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
      Sem ele.

Ah servidão irreprimível, nada
Da vida humana subsiste, que sabe
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.

Mas respondes-me: E os poemas que screves
A quem os dá futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
      O que o Destino manda.

 


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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