Abro o baú antigo, e à minha vista
Em morta arrumação surge o passado.
Cada cousa me lembra alguém amado
Que hoje todo o infinito de mim dista...

E o horror da vida e do mistério e fado
Meu coração exânime contrista.
Vazio escravo duma dor sem pista
Percorro sombras, e enganado.

Em cada cousa que ergo donde está
Sinto a raiz funda em meu coração
Que um sinal mudo e lívido me dá.

Vivo quanto já fui e que perdi.

24 - 8 - 1925

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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