Suavíssimo, como se fora
Só o supô-lo, o orvalho vem,
Parece como quando chora
A alma, mas os olhos têm
Certa secura enganadora.

Suavíssimo, como se andasse
Do próprio ser a se afastar,
O orvalho, ainda que não passe,
Dir-se-ia estar já a passar,
Ou que o seu ser é um disfarce.

Suavíssimo, como se a vida
Pudesse querê-lo p’ra o reter,
É uma impalpável estada ida,
Inexistente arrefecer,
Como a minha alma e o meu ser...
 

 

14 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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