Se procuro o teu rosto 
no meio do ruído das vozes 
quem procura o teu rosto? 

Quem fala obscuramente 
em qualquer sítio das minhas palavras 
ouvindo-se a si próprio? 

Às vezes suspeito que me segues, 
que não são meus os passos 
atrás de mim. 

O que está fora de ti, falando-te? 
Este é o teu caminho, 
e as minhas palavras os teus passos? 

Quem me olha desse lado 
e deste lado de mim? 
As minhas dúvidas, até elas te pertencem? 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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