Mãe, quero ir ao passado, onde estive buscar
      Os brinquedos que lá deixei,
Não digas que a noite está fria, que faz mal o ar,
      Mal não me farei.
Quero ir à procura do irmão meu que perdi
      E sou eu afinal,
Mas aquele que brincava comigo como nunca vi
      P’ra loucura igual.
Quero ir, minha mãe, ao passado — só dois passos
      Para fora da porta
Buscar o boneco, e o persa infantil, e os □

Mãe, não me guardes os carros, é luar, vejo bem.
      Quero ir ver se inda está
O carro pequeno onde o deixei, se ninguém
      O tirou de lá.
Quero ir trazê-lo debaixo do braço, a correr,
      Quero ir ter ao jardim,
Mesmo que eu nunca volte, mãe, e ir seja morrer
      Deixa-me ir lá ao fim.
Quem compreende o que eu sinto? O carro e o boneco
      Eram meus, estão ali.
Não queiras que eu não vá. Vê se os □ ou os perco

Mãe, é tão triste dormir a pensar e a ter pena!
      Mãe, não to sei dizer...
Deixa que eu vá, deixa que eu volte à criança pequena!
      E possa esquecer.

8 - 10 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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