Em breve partirei de novo 
e caminharei por desertos e por desastres 
e por leituras exasperadas e citações, 
entre palavras, sem ninguém real que me espere e me abra a porta. 

O jantar arrefecerá na mesa, 
os meus livros desesperarão 
e não haverá sentido que os conforte 
e o meu nome, se tiver um nome, não me responderá. 

E no entanto um fio de tempo ou um fio de sangue, 
ou então algo ainda menos palpável, 
o que partiu e o que ficou regressando um ao outro 
por galerias intermináveis e sonhos desfigurados, 
ausentes um do outro, desaparecendo um no outro
como se esgota a água no fundo de um poço


In TODAS AS PALAVRAS. POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
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