Há quanto tempo eu não passava aqui
      Por esta rua, há dez anos talvez!
Aqui morei, contudo, aqui vivi
      Um tempo — uns dois anos ou três.

A rua é a mesma, o novo é quasi nada
      Mas ela, se me visse, e o dissesse,
Diria, É o mesmo, e eu ‘stou tão mudada!
      Assim a alma lembra e esquece.

Passamos pelas ruas e por gente,
      Passamos por nós mesmos, e acabamos;
Depois na ardósia, a Mão Inteligente
      Apaga o símbolo, e recomeçamos.

12 - 3 - 1928

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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