Senhor, a obra fica e o homem passa.
Mas a obra é o homem. Só estas canções
No fundo incerto e oceânico da raça
E anónimos, longes corações.
Em torno a mim, se de mim mesmo corro
O som ruído da onda e as praias toco
Do Largo no abismo do meu ser,
Pairam as naus perdidas que encontraram
O por-achar e em mares se abismaram
Para além do Regresso e do Esquecer.

Parte quem fica quando a Alma manda.
Em mil naus a Vossa alma reviveu
E no universo, de uma a outra banda
Do que se achou e que se conheceu,
Vossa Presença Eterna violou
As portas de ouro com que Deus fechou
O oriente de luz e o ocaso morto...
Vosso espírito ainda nos consuma
E obre as novas naus em nós a suma
Vitória de não quererem nunca o porto.


[1921]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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