Desarmada infância
Penteias tua boneca com pentes de tartaruga inventada
Como se fosses pequeno deus humilde
Em poderoso céu
Modelando a argila da montanha
E brincas sorrindo com brinquedos que não existem
Na cancha povoada de tuas mãos de seda nova

E olhas Amas Acusas mudamente
E não esqueces em tua memória virgem lavada
Ou finges esquecer no teatro da infância que te armaram
Aqueles que mentem diante da tua palavra sem mentira
E cheia de invenção deslumbrada
E tu
Ou na barraca de injustas tábuas
Ou no quarto de janelas de vidro
Se acordas abres teus olhos amparados de espanto
E olhas e confias
Confias mesmo de olhos acordados
E o que está por fora em torno de ti
Esmaga o entendimento por sinais confusos
Bambas solidões de cordas
E tu entendes sem entender
Ternura raiva calada que aprende os passos do falar e [do silêncio
Ternura raiva calada que aprende os passos do andar
Até que os pés sejam unidos em repouso final
Caçados Presos pelos calcanhares
Vejo teu corpo dobrado e nu no líquido denso e sombrio
Na arca do ventre que te gerou
Teu corpo dobrado e nu e não maravilhado ainda
Incapaz de pentear bonecas de fazer rolar imaginados brinquedos
E tudo foi desde o romper das águas de onde vieste desse lento rio Eufrates
Desaguando em mar dé fogo.
E tudo é (foi) depressa de mais Tudo
Menos o saber que se morre sobre a terra
Terra que o Sol aquece no seu lento inevitável caminhar
Beijando no sacrifício velos cordeiros de inocência
Ou secando a roupa que teve de se lavar na guerra estranha do uso comum
E uma lágrima líquida que não desce
Água evaporada de poluida terra até à morte ela ficará
Invisível Pura Parada Rígida em rosto rígido de olhos cerrados
Infância desarmada desarmada infância
Esperança única esperança poder único do mundo transparente e secreto
Da paz.
Dramática inocência que sabe
Serena inocência para aprender

 


In Voz Nua , Livros Horizonte, 1986
Matilde Rosa Araújo
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