A criança loura 
Jaz no meio da rua.  
Tem as tripas de fora 
E por uma corda sua 
Um comboio que ignora.  
A cara está um feixe 
De sangue e de nada.  
Luz um pequeno peixe 
— Dos que bóiam nas banheiras — 
À beira da estrada. 
Cai sobre a estrada o escuro.    
Longe, ainda uma luz doura  
A criação do futuro... 
E o da criança loura?

ante 14-7-1929 (21-6-1929)

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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