Naquela grande descida
Que desço todos os dias,
Muitas vezes a correr,
Encontrei-o de partida
(Partia todos os dias);
Ia também a descer.

Ora é de todos sabido
(Sabido todos os dias)
Que a companhia é agrado,
E que o agrado é devido
(Devido todos os dias)
P’lo destino ao destinado.

E, ambos descendo, contávamos,
No tom de todos os dias,
A mesma história diversa:
Falhava o com que contávamos
(Falhava todos os dias)
Nos acasos da conversa.

Ó meu romântico ultimo
(Último todos os dias,
Porque todos são iguais),
Vou contigo — sou o penúltimo —,
E iremos todos os dias,
Falando cada vez mais

Do que não falha ou não volta,
Do fim de todos os dias,
De tudo, menos de ter
Todos os dias revolta
De termos todos os dias
Este descer que descer.

 O PENÚLTIMO ROMÂNTICO


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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