Acho-me da Fortuna salteado;
o tempo vai fugindo pressuroso,
deixando-me da vida duvidoso
e cada instante mais desesperado.

Trocou-se o meu descuido em tal cuidado
que, donde a glria mais, mais penoso;
nem vivo, de perder-me, receoso;
nem, de poder ganhar-me, confiado.

Qualquer ave nos montes mais agrestes,
qualquer fera na cova repousando,
tem horas de alegria; eu todas tristes.

Vs, saudosos olhos, que o quisestes,
pois com tormento amor me esto pagando,
chorai, como o que vedes, o que vistes.

 

Luís Vaz de Camões
[ACHO-ME DA FORTUNA SALTEADO;]
Voltar