Quem és tu, planta?
Teu vulto espanta
Meu olhar quedo
Que te olha em medo...

Quanto mais ponho
Em ti o olhar
E decomponho
Ver-te em pensar,

Mais me parece
Que o vulto teu
E um rosto

Tudo tem rosto
Tem tudo olhar...
Névoa-antegosto
Do decifrar!

Sobe em meu ser
Um medo a Deus...
Quero não ver
Os mudos céus...

Porque o seu claro
Azul sem fim
Com um olhar sem olhos
Olha para mim..

Paro em meu frio
Limiar da alma...
Como o arrepio
Que cerca a calma

Em que me cerco
De Deus e teu
E em mim me perco
Por todo o céu.


 espaço deixado em branco pelo autor

2 - 10 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar