Ainda há do teu sangue em minhas veias
E que pouco eu sou teu, longínquo avô!
Da tua alma leal que longe estou
E da inércia e da dúvida em que teias!

Tu tinhas, suponho eu, poucas ideias
Mas seu fim natural tua alma achou,
E eu, que me sondo, nunca sei quem sou
E tenho as horas de incerteza cheias.

Qual mais nos vale — a inconsciência forte
Ou esta débil consciência fria
Que nos perguntou qual o nosso norte —

Penélope interior que à vista fia
O aparente lençol da sua sorte
E à noite anula o que fiou de dia.

13 - 11 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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