Vendo-me sem alegria
Perguntou mãe Natureza:
      «Mas o que desejas tu?
Donde vem tua tristeza?
Nessa fronte, qual a dor?
      Diz-me o que tanto desejas.»

— «P’ra mo dar não tens poder.
Algo mais belo que o amor,
Mais azul que toda a altura,
Mais verdadeiro que a verdade;
Algo mais que a sepultura
E que tem raiz no ser,
Algo que nem beijo de amante
Ou de mãe pode trocar.
Mas, sonhando, vou poluir
O seu fim com meu sonhar.»

No silêncio absoluto
De minh’alma ouço-a dizer:

«Amor só me faz chorar,
      A glória é só mero anseio.
      Dá-me o mundo p’ra guardar
      E, inda assim, nada é meu.»

— «Mas o que sentes então?»
— «Primeiro, esp’rança e angústia,
Depois, angústia, aflição.
Oh, um desejo, uma sede
De minh’alma ultrapassar,
Da consciência romper,
      Não sei como, as asas ter
Da lua e nelas voar
P’ra lá dos muros do sofrer.
Erguendo um voo mais ousado,
Além da noite, elevado,
Subir mais alto que o ar
Onde as águias vão voar.

Algo mais perto de mim
Que meu corpo; e, mais do que eu,
Esse Algo belo ser meu.
Algo (como dizê-lo assim?)
Mais junto a mim na essência
Do que a minha consciência.
Isto é esse Algo que anseio.
Está além do longe ausente,
Mas de mim (quem o diria?)
      Mais perto que a minha mente,
      Mais rente a mim que este dia.»


1907

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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