Amor que desce, amor que nem procura
de  um a  ser mundo  o  sopro  repetido;
amor em  quem  não  vive  o  quanto  dura,
no  morto  antes  de  tempo,  o  não vivido;


amor, a  quem  não  resta  a fonte obscura
daqueles  cujo   peso  foi   perdido;
amor que  não  conhece  mais ternura
além  da   que não  quis  sangue vertido:


(Anjo que passas no desdém da  terra,
que terra  não  existe em tuas  penas?
Que  Sol,  de   iluminá-las  tão   serenas,
se  perderá  das  órbitas que  encerra?)


amor vidente que o olhar tritura;
amor — saudade  pura   sem  sentido.


In Coroa da Terra
Jorge de Sena
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