Não a Ti, Cristo, odeio ou te não quero.
Em ti como nos outros creio deuses mais velhos. 
      Só te tenho por não mais nem menos
      Do que eles, mas mais novo apenas.

Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço,
Que te querem acima dos outros teus iguais deuses. 
      Quero-te onde tu stás, nem mais alto
      Nem mais baixo que eles, tu apenas.

Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia
Como tu, um a mais no Panteão e no culto,
      Nada mais, nem mais alto nem mais puro
      Porque para tudo havia deuses, menos tu.

Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida
É múltipla e todos os dias são diferentes dos outros,
      E só sendo múltiplos como eles
      Staremos com a verdade e sós.

9 - 10 - 1916

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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