Primeiro abre-se a porta 
por dentro sobre a tela imatura onde previamente 
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente, 
a mãe para sempre morta. 

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois, 
como uma foto que se guarda na carteira, 
iluminam-se no quintal as flores da macieira 
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
 
Protege-te delas, das recordações, 
dos seus ócios, das suas conspirações; 
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos: 
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos. 

Uma casa é as ruínas de uma casa, 
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra; 
desenha-a como quem embala um remorso, 
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso. 


In TODAS AS PALAVRAS. POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
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