Vou passando pelo bosque,
Pelo bosque vou passando,
E ouço alguém que não existe
Cantar o que estou pensando.

Deve ser aquela ninfa
Que é alma do bosque todo
Que sem que tire o silêncio
Está cantando deste modo.

Se escuto, não ouço o que ouço:
Só vagamente a folhagem
Faz um ruído de folhas
Com o ruído da aragem.

E é esse ruído que é o canto,
Se, distraído, vou dando
Atenção à alma do bosque,
Vou pelo bosque passando.

1 - 4 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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