Ũa pastor bem talhada
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant’eu vi, mui coitada;
e diss’: “Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada
pois que mio o meu á errado”.


Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss’: “Amigo loução,
que faria por amores,
pois m’errastes tam em vão?”
e caeu antr’ũas flores.


Ũa gram peça do dia
jouv’ali que nom falava
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss’: “Ai Santa Maria,
que será de mim agora?”
e o papagai dizia:
“Bem, por quant’eu sei, senhora”.


“Se me queredes dar guarida”,
diss’a pastor, “di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m’é esta vida”;
diss’el: “Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vós á servida
erged’olho e vee-lo-edes”

 

Dom Dinis
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