A tristeza juncou de pétalas de rosa
O chão do meu jardim
E a  a alma que em mim goza
A dor que passa em mim
Só ficou mais inquieta, ansiada e sequiosa
Do que nunca teve fim.

A Maldade juncou de apodrecidos frutos
O chão do meu pomar
Mas meu ser não vestiu nem rancores nem lutos
Ao ver o desolar.
Só ama mais ainda os seres impolutos
Que não têm acabar.


Meu jardim e pomar hoje apenas consistem
Em  memórias fatais,
Mas a minha alma ao ver, nas tristezas que a assistem,
Que os seres imortais
Em parte alguma — céu ou terra em sonho existem
Ainda os amou  mais.


 espaço deixado em branco pelo autor

18 - 5 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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