Sem saber como nem porquê medito,
E por acaso penso em Ashavero.
E o sentido possível do alto mito
Entra em meu ser como um luar severo.

Diz-se que outrora quando um deus levava
Ao Calvário do mundo a sua cruz
Este, porque ele à sua porta dava
Ao findo percurso, ergueu-se e a Jesus

«Segue no teu caminho» disse e o Cristo
Por maldição eterna lhe deixou
Andar sem cessar sobre a terra, misto
De cansaço e impulso a ir □

Mas eu penso e do mito misterioso
Corre-se-me a cortina lentamente
E outro sentido mais solene e amoroso
Cresce na minha perturbada mente...

Ah, tu és mais do que aparentas ser,
Ó Judeu ostensivo, sem paragem
Sobre Terras sem fim indo a correr
Através de não ter fim tua viagem.

Outro sentido mais do fundo da alma
Acorda para meu na história tua
E eu ouço em mim, como que fala calma
Da noite entre árvores leve ruído sob a lua,

Teus passos ao soar significaram
Mais longínquos □ que a Palestina
Ah, quem tu és já sei, □

Da noite, quando □ pensamento 
De noite deixará de pensar
Ouço-o passar, e ele é a voz do vento,
Ouço-o gemer, e ele é a voz do mar...

Eterna voz da natureza eterna
Sempre inquietamente procurando
A quietação,… e o teu andar alterna
Com teu andar numa outra sensação.

Se aos ouvidos teu ruído cessa e olho
Nas árvores □ que estremecem
Teu pé que se ergue vejo e um a um colho
Teus passos indo p’ra onde as cousas mexem.

Consubstância cansado do infinito
Movimento sinergia do mundo,
Não tens um aí e o teu andar é um grito
Lançado do chão morto aos céus sem fundo...

O teu cansaço é a força dos teus passos,
Teus passos cansam-te e só podes ir
Andante, a crescer teus □ cansaços
E a tua vida é sempre só seguir.

Ah se o eterno e móbil Universo
Temos, ele és tu, cansado peregrino
Para nenhum lugar, seu fim imerso
No inútil □ do seu destino.

O movimento eterno nada sendo
Sem o eterno movimento, a estrada
Sob ti é a Noite, e tu estás pertencendo
À tua viagem sempre começada.

Átomos, células cansadamente
Sem nexo ou fim movendo-se, rodando
Como para um propósito, e é somente
Esse propósito ir continuando.

Causa ou fim de si-próprio, eterno morto,
Única lógica de si, completa
Vazia explicação do seu ignoto
Mero rodar que nunca se interpreta.

E em arabescos de complexamente
Ser sempre o mesmo, sempre o mesmo, ó dor,
O movimento é progressivamente
Movimente, estar, ser, □ cor

E sol, e sendo sempre a mesma cousa
É sensação e inteligência e afecto,
E a roda roda sempre, eterna ansiosa
De realizar o absurdo ser completo...

Depois de vida e morte e alma ser
Mais cresce, com prolixa vacuidade,
O movimento inútil e vai ter
Outras formas, □ sociedade,

Guerra, trabalho, arte, guerra, ciência,
A estátua, o povo, □ a esmo
Tendo a mesma absurda florescência
Do movimente eternamente o mesmo.

E a sua linha crónica traçada
No corpo absurdo do Silêncio azul
Em espirais supostas enrolada
Da realidade vã de norte a sul

Vai tendo nome Civilização,
Progresso... e é sempre o movimento a andar
Sem ter um fim ou um □ senão
Não ter um fim e andá-lo a procurar

E num eterno círculo de absurdo,
Num fechado rodar sem nexo ou nome,
Sob o olhar [.] dum Deus que é surdo
Ao nosso pranto, e algoz p’ra a nossa fome,

Instante a instante o giro se completa
Do círculo que nunca começou
E tudo vai na órbita secreta
Do mistério que o criou...

Tudo um vórtice de Nada feito
Um abismo findo num abismo
E este, Senhor, é o Mundo mal perfeito,
Isto é o amor, o pensamento, □

Chuva a cair lá fora, som do vento,
Choro do mar, vozes dentro de casa...
Tudo isto é movimento, movimento
Que passa como uma asa

Absurda asa de nenhuma ave,
Mera horrorosa parte — de que todo? —
Que longe ou perto, em grito duro ou suave,
E sempre o mesmo gesto, o mesmo modo.

Pávido cismo e a horrível unidade
No absurdo e no movido inexistente
De tudo quanto é corpo ou alma
Move ódio, cheio de imóvel tristeza doente.

Senhor! Quem somos! Este eterno gesto
Da sombra das tuas mãos no alegre mundo
Tem um sentido que nos seja mestre?
Tem um sentido em Ti que ligue Tudo?
 
Tu-próprio és Porto, Estagnação ou entras
Na roda eterna do universo inteiro?
És no universo? ou em ti te concentras?
És mero silêncio, o abismo derradeiro

Para onde o incessante mote de pensar
Arrasta o absurdo do que nós pensamos.
Existes? Há parar? Há repensar?
O fim do grande Vão tem ramos?

 

8 - 12 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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