MOTE ALHEIO

De pequena tomei Amor,
porque o no entendi;
agora, que o conheci,
mata-me com desfavor.

VOLTAS PRPRIAS

Vi-o moo e pequenino,
e a mesma idade ensina
que se incline ũa minina
s mostras de um minino.
Ouvi-lhe chamar Amor,
pelo nome me venci;
nunca tal engano vi
nem tamanho desamor.

Creceu-me de dia em dia
com a idade a afeio,
porque amor de criao
n' alma e na vida se cria.
Criou-se em mim este amor
e senhoreou-se de mim.
Agora, que o conheci,
mata-me com desfavor.

As flores me torna abrolhos,
a morte me determina
quem eu trouxe de minina
nas mininas dos meus olhos.
Desta mgoa e desta dor
tenho sabido enfim;
por amor me perco a mim,
por quem de mim perde o amor.

Parece ser caso estranho
o que Amor em mim ordena:
que em idade to pequena
haja tormento tamanho.
Sejam milagres de Amor,
hei-os de sofrer assi,
at que haja d de mim
quem entender esta dor.
 

Luís Vaz de Camões
[DE PEQUENA TOMEI AMOR]
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