Água fresca por um púcaro que chia,
Sombra simples de uma árvore qualquer,
Noras, trigais, o nome de Maria
Voz rude e rústica de uma mulher.

Estradas usuais, Sol normal. Dia
Banalissimamente a entardecer;
Há horas em que a alma se extasia
Em viver isto só, nem sol mais quer.

Porque para que serve mais querer
Todos modos da vida são viver
Vida, apenas viver, são encher

De dias a consciência oca de tê-los
E de ocas cousas mil de os ter
A ideia de que é inútil o havê-los.

22 - 6 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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