A ũa senhora que estava rezando por ũas contas.

Peo-vos que me digais
as oraes, que rezastes,
se so pelos que matastes,
se por vs, que assi matais.
Se so por vs, so perdidas;
que qual ser a orao
que seja satisfao,
Senhora, de tantas vidas?

Que se vedes quantos vm
a s vida vos pedir,
como vos h Deus de ouvir,
se vs no ouvis ningum?
No podeis ser perdoada
com mos a matar to prontas;
que, se Nũa trazeis contas,
na outra trazeis espada.

Se dizeis que encomendando
os que matastes andais,
se rezais por quem matais,
para que matais, rezando?
Que, se na fora do orar,
levantais as mos aos cus,
no as ergueis para Deus,
erguei-las para matar.

E quando os olhos cerrais
toda enlevada na f,
cerram-se os de quem vos v
para nunca verem mais.
Pois se assi forem tratados
os que vos vem quando orais,
essas horas que rezais
so as horas dos finados.

Pois logo, se sois servida
que tantos mortos no sejam,
no rezeis onde vos vejam,
ou vede para dar vida.
Ou, se quereis escusar
estes males que causastes,
ressucitai quem matastes:
no tereis por quem rezar.
 

Luís Vaz de Camões
PEçO-VOS QUE ME DIGAIS
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