(A uns políticos)

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem há vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um só ponto, e a ânsia, o ardente vórtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra à vossa sombra…
Ou que a sombra vos toma a terra toda!
Dir-se-á que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus há dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, vão e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-á que o mar da vida é gota d’água
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais, temendo que não chegue!

Homens! para quem passa, arrebatado
Na corrente da vida, nessas águas
Sem limites, sem fundo — há mais perigo
De se afogar, que de morrer à sede!

De que vale disputar o espaço estreito,
Que cobre a sombra da árvore da pátria,
Quando são vossos cinco continentes?
De que vale apinhar-se junto à fonte
Que — fininha — brotou por entre as urzes,

Quando há sete mil ondas por cada homem?
De que vale digladiar por uma fita,
Que mal cobre um botão, quando estendida
Deus pôs sobre a cabeça de seus filhos
A tenda, de ouro e azul, do firmamento?
De que vale concentrar-se a vida toda
Numa paixão apenas, quando o peito
É tão rico, que basta dar-lhe um toque
Por que brotem, aos mil, os sentimentos?!

Oh! a vida é um abismo! mas fecundo!
Mas imenso! tem luz — e luz que cegue,
Inda a águia de Patmos — e tem sombras
E tem negrumes, como o antigo Caos:
Tem harmonias, que parecem sonhos
De algum anjo dormido; e tem horrores
Que os nem sonha o delírio!

E imensa a vida,
Homens! não disputeis um raio escasso
Que vem daquele sol; a ténue nota,
Que vos chega daquelas harmonias;
A penumbra, que escapa àquelas sombras;
O tremor, que vos vem desses horrores.
Sol e sombras, horror e harmonias
De quem é isto, se não é do homem?!

Não disputeis, curvado o corpo todo,
As migalhas da mesa do banquete:
Erguei-vos! e tomai lugar à mesa…
Que há lugar no banquete para todos:
Que a vida não é átomo tenuíssimo,
Que um feliz apanhou, no ar, voando,
E guardou para si, e os outros, pobres,
Deserdados, invejam — é o ar todo,
Que respiramos; e esse, inda mais livre,
Que nos respira a alma — a terra firme,
Onde pomos os pés, e o céu profundo
Aonde o olhar erguemos — é o imenso,
Que se infiltra do átomo ao colosso;
Que se ocultou aqui, e além se mostra;
Que traz a luz dourada, e leva a treva;
Que dá raiva às paixões, e unge os seios
Com o bálsamo do amor; que ao vício, ao crime,
Agita, impele, anima, e que à virtude
Lá dá consolações — que beija as frontes
De povo e rei, de nobre e de mendigo;
E embala a flor, e eleva as grandes vagas;
Que tem lugar, no seio, para todos;
Que está no rir, e está também nas lágrimas,
E está na bacanal como na prece!…

Eis a Vida! o festim que Deus, no mundo,
Para os homens armou! para seus filhos!
Forma mais pura do Universo augusto!
Da lira universal nota mais alta!
Do chão do infinito seara ardente!
Quando os orbes de luz, que andam na altura,
Sentem a face, às vezes, enublar-se
E o seio lhes revolve íntima mágoa,
É que nessa hora uma ânsia de venturas,
De amor mais vasto, de mais bela forma,
Uma aspiração vaga os acomete…
Pedem a Deus que estenda a mão piedosa
E os erga à luz maior, à luz do espírito,
E tem inveja ao homem, porque vive!
Da árvore do Eterno pendem frutos,

E frutos aos milhões — estrelas, astros,
Formas e criações que nem se sonham —
Mas só onde seus ramos se mergulham
No espírito vital do infinito,
Só onde o ar puríssimo do Belo
Lhe beija as franças últimas — somente
Lá se abre o lírio augusto, o lírio único,
A flor dos mundos, que se chama Vida!

Inundação de crenças… e dilúvio
De dúvidas fatais! hino de glórias…
E rugido feroz! Se és fera, toma

A parte dos rugidos — e, se és homem,
Ergue ao céu tua face, e entoa os hinos!
Se há valor em teu peito, corta as águas,
Nadando, desse mar de infindas dúvidas:
Ergue-te, luta, arqueja, precipita-te,
Deixa as ondas lavar-te o corpo, ou dar-te
A pancada da morte — mas sê homem!
Sê grande sempre! e, ou Satã ou Anjo,
Blasfema ou exulta… mas não desças nunca!

Porque descer é morte, é sombra, é nada!
É a pedra que dorme: é lodo escuro
Que sombrio fermenta! A alma, se é espírito,
É por que à farta possa encher, crescendo,
O espaço todo e todo o ar infindo!
E, bela ou triste, horrível ou sublime,
Santa ou maldita, a vida é sempre grande!

Rocha por onde os tempos vão seguindo
No caminho que os leva ao infinito…
É tão vasta, que os séculos marchando
Com passos de gigante, há milhões de evos,
Não puderam ainda ver-lhe o termo,
Não puderam gastá-la um pouco, apenas!
É tão fundo esse mar, é tão fecundo,
Que os homens todos, que há milhões de séculos


Nascem da espuma e vêm encher as praias, Bebendo a longos tragos, não puderam
Fazê-lo inda baixar, sequer um palmo!
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E não vos chega para vós? Os tempos
Deixaram cheia aquela taça imensa…
E estes três homens já lhe vêem o fundo!
As ideias serenas e os combates
Da eterna liberdade; o amor e as lutas
E as dores da verdade; as doces lágrimas
E os rugidos altivos; o que os sábios
Nos ensinam, e quanto o olhar ingénuo
Da mulher nos revela — tudo, tudo,
Tudo isto, nos banquetes da existência,
É um bocado apenas para a boca
Destes Titãs imensos… de seis palmos!

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Porque é que combateis? O mundo é vasto!
Dá para todos — todos, no seu pano,
Podem talhar à farta e à larga um manto
Com que cobrir-se… e que inda arraste… É vasto,
Erguei somente os olhos! alongai-os
Pelo horizonte! e, além desse horizonte,
Há mil e mil como este!
                                 Se vós tendes
O olhar fito nos pés, aonde a sombra
Em volta de vós mesmos gira apenas,
O que podeis saber desse Universo?!
Não há olhos que contem tantos orbes!
E cada um desses mundos tem mil vidas!
E cada vida tem milhões de afectos,
De paixões, de energias, de desejos!
Cada peito é um céu de mil estrelas!
Cada ser tem mil seres! mil instantes!
E, em cada instante, as criações transformam-se!
E coisas novas a nascerem sempre!

Descei, descei o olhar ao próprio seio!
Como num espelho, esse Universo todo
Reflecte-se lá dentro! é como um caos
Donde, ao fiat ardente da vontade,
Podem surgir as criações aos centos.
Podeis tirar daí a luz e a treva!
Podeis tirar o bem, e o mal, e o justo,
E o iníquo, e as paixões torvas da terra,
E os desejos do céu!

                            Pois não vos chega?
Assim queirais viver, que há muita vida!
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Alexandre! Alexandre! és tu que choras
Não haver já mais mundo que conquistes…
E sais daqui, ó triste! sem ao menos
Ter olhado uma vez dentro em tua alma!
Alexandres inglórios! toda a terra
Acabou, onde a vista vos alcança!
Correis… correis… correis… atrás de um átomo…
E ides deixando, ao lado, os universos!
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Mas vós não vedes nada disto! nada!
E quereis aos homens ensinar a vida?!

 


In Odes Modernas
Antero de Quental
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