Antes de ti era a Mãe Terra scrava
Das trevas súperas que da alma nascem
      E caem sobre o mundo
      Porque atrás o sol brilha.

A realidade ao mundo devolveste
Que haviam os cristãos fechado na alma
      E as portas reabriste
      Por onde aurora o carro

Ou Febo guie e os dois irmãos celestes
Quando no extremo mastro à noite luzem,
      Mais valham que um luzeiro
      Na ponta de um pau seco.

Restituíste a Terra à Terra. E agora
És parte corporal da própria terra,
      Ou sombra □
      Erras nas sombras frias,

Mas ao ouvir-te os povos com que auroras
Do abismo os íncolas as tristes frontes
      Erguem e sentem deuses
      Caminhar pelas sombras.

E eis que de nova luz o abismo se enche
E um céu raia a cobrir o absorto fundo
      Da fauce misteriosa
      Que traga o mal do mundo.


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[[ANTES DE TI ERA A MÃE TERRA SCRAVA]]
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