Só por ver passar um carro
Quando não reparo nele
De mim mesmo me desgarro,
Com meu pensamento esbarro
E vejo que não sou ele.

Meus olhos fitam, reclusos,
A carroça que passou.
Tudo tem fins e tem usos.
E fecho à chave os abusos
A que não ver me obrigou.

11 - 6 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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