Ouço tocar um piano, e ao fundo
      Da música rir. Falto
Ao sonho, olho; é nesse segundo
      Andar do prédio alto.

De vozes jovens tanta alegria!
      Falsa talvez? Sei-o eu?
Que inveja daquele prazer me esfria!
      Vulgar? Mas não é meu.

Ali naquele segundo andar
      Talvez sejam felizes.
Passo, e o meu sonho daquele lar
      É como um sonho de outros países.

21 - 7 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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