Felizes, cujos corpos sob as árvores
      Jazem na húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
      Das doenças da lua.

Verta Eolo a caverna inteira sobre
      O orbe esfarrapado,
      Lance Neptuno, em cheias mãos, ao alto
As ondas espumando,

Tudo lhe é nada, e o próprio pegureiro
      Que passa, finda a tarde,
Sob a árvore onde jaz quem foi a sombra
      Imperfeita de um deus,

Não sabe que os seus passos vão cobrindo
      O que podia ser,
Se a vida fosse sempre vida, a glória
      De uma imortal saudade.

1 - 6 - 1916

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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