Mas ah que um ente vil e tão mesquinho,
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em submisso desalinho
O edifício □ da nossa ciência!

‘Studo-te e odeio com desprezo e mágoa.
Plebe dos sexos, sem pudor nem ciência,
Instável e amoldável como a água,
Incapaz de justiça e de consciência.
Vil no próprio carinho dedicado,
E na própria bondade anjo malvado.

Tu aproveitas, tudo ao gozo chamas.
E se a ti mesmo enganas quando mentes,
Não tanto enganas que □

Ah que contra uma alma que aprendeu
Na vária sorte e rudez má da vida
A ter a firme □

Possam as tuas redes valer tanto,
Tanto o teu próprio suspeitado encanto.
Porque de nada vale conhecer-te,
De nada desprezar-te e ver-te nada.
Fazes querer-te a quem não quer querer-te,
Quem vê os ‘spinhos na tua rósea ‘strada
Não menos segue a ‘strada que vê ser
Da perdição, esquecendo-a por te ver.
 
Que fraqueza se é força sermos fortes,
Que força, se ser fortes é fraqueza,
Nos dá ‘scravos aos pés □
Podemos desprezar-te e não podemos’
Fazer os gestos com que desprezamos.

Vã loucura buscar te resistir!
Inútil força querer não ser teu servo!
Sem força ou arte sabes conseguir.
E cada ‘stria em nós de cada nervo
Clama contra o domínio da razão
Se o mero braço sente a tua mão.

Contra Vénus Minerva não construe
Armaduras que durem mais que um beijo.
Não tem Jove justiça que subdue
A revolta insolente do desejo.
Se a tua boca fala, tudo cala
Em nós saber o que em nós ouve a tua fala.

Entre o livro, onde a ciência é lida, e a mente
A imagem se interpõe do teu carinho.
Na ‘strada para o Olimpo eternamente,
Teu vulto surge, Circe do caminho.
Entre nós e a ambição que quer erguer-nos
Anseiam teus humanos olhos □ ternos

E com teu meigo amplexo, inda sonhado,
A alma fraqueja, a ciência é fria e dói.
Não te ter todo o agrado e bem destrói.
Tudo, salvo a razão, em nós te quer.
Tudo, a não ser □

Perene peso da matéria em nós,
Símbolo eterno da imperfeita vida,
Que, havido é o mal, e não havido é atroz,
Que tanto dóis tida como não tida,
Que se o corpo te tem, a mente adoece,
Se te não tem, de te não ter padece.

Que força sobre-humana é que é precisa
Para, firme e constante, rejeitar-te,

 II

Se me amas, não me ames. Deixa só
Quem não quer mais que a glória e a imortal vida
Busca quem possa querer-te, tendo dó
Que mal te fiz para que tu me ames,
Que ódio me tens à minha vida para amar-me


[1919]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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