Eu não aparecerei quando tu chamas,
           Pois estou já contigo ao teu chamar.
Quando em ti penso, estás dentro de mim,
           E tudo é já teu próprio pensar.

Tua presença de ausência se veste
           Em teu corpo, onde a alma escondida.
É em minha mente que inteira estás
           E é em mim que tu és possuída.


Fora de ti, dado ao espaço e ao tempo
           Teu corpo, mero tu, de mim ausente,
Partilha a mudança, o tempo e o lugar,
           Pertence a outra lei, de ti diferente.

No meu sonho de ti nada te altera
           Em outra, que contigo se compara.
Tua presença corpórea é só a parte
           De ti, que a ti de ti separa.

Por isso chama, mas sem me esperares.
           Tua voz, ao meu sonho acrescentada,
Juntará mais beleza ao meu pensar
           Teu corpo, vivo na mente habitada.


A tua voz ouvida da distância
           Mais aproxima tua sonhada presença.
Mais nítida e clara que parecia,
           Na minha fantasia fica imensa.

Não chames mais. Tua voz duas vezes
           Repetida no espaço verdadeiro,
Quase seria como a realidade.
           O segundo som, o eco do primeiro.

Chama uma só vez. E que eu imagine
           No segundo apelo, de olhos cerrados,
A visão do teu corpo a cintilar
           Na memória visível dos teus brados.

O resto será teu prolongamento,
           Olhos fechados p’ra não sentir,
No apelo premente de meu sonho.
           Fica longe, calada, mas sem vir,

Pois virias perto de mais à vista
E de meu pensamento irias para ti
          Vestindo em mim teu corpo sonhado
(O sonho do teu corpo é infinito)
          Com teu limite, o visualizado.

 


In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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