houve um estremecimento de pedras
quando despertaste para me revelar
o nome e o lugar distante donde regressavas
trazias um cardo e um dragão tatuados no ombro
encostaste a cabeça as mãos sobre o peito
murmuraste: onde há muito não pernoitavas
sou teu amigo...

abriste a porta esgueiraste-te para a noite
vi transformares-te em sombra lenta
por cima da respiração sonâmbula da paisagem
Tacteando a fugitiva alegria pela claridade do mar

mas um amargor de areia cintila nos cabelos
outra melancólica ave desfaz-se contra o rosto
abre uma asa de água e fere a imagem presa na cal
onde um rastro de ossos assinalava o regresso
a cada
mancha de tinta nos dedos
ilusão remota de alguns brinquedos
e a certeza de que tudo o que escrevi
se apaga na excessiva dose desta cicuta

ouço um tiro rente à cabeça
levanto-me e tu caminhas de novo para mim
dou-te a beber o escasso lume destas tâmaras e caminhamos
esquecidos da infelicidade daqueles dias

 


In O Medo
Al Berto
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