(after C.P. -  Violoncelos)

 


A flauta débil
Ao começar
Torna-se flébil
Novo cantar
Ao meu triste amor.

Nítido, vive-me
Na alma a sorrir
E em mim revive-me
E num delir-me
Faz descobrir.

Límpido, ao nível
Do meu cantar
Faz-me crer crível
O que eu sensível
Crera impossível,
O vir a amar.

E alegre vejo
E desdobrando-se
Pela alma minha
Como que o beijo
Dentro em mim dando-se
De uma rainha

Rainha antiga
Lívida e triste
Que era amiga
Desta cantiga
Que em mim existe.

Cantiga débil
Que n’alma flébil
Me apareceu
De como o céu
Que ténue e flébil
E a cantiga — Já mas morreu...

De como a ária
Do dolo
— Sombrio pária
E sem consolo! — Nos faz precári
A vida, e vária,
De desconsolo

Débil e frouxa
Nem acabou
De que era débil
Na alma flébil
E . Oxa-
Lá que com roxa
Flor vive, a flébil
Que n’alma débil
Me despontou.

Ai a flor minha
Na alma débil
A flor vizinha
Da mágoa minha
Como murchou!
Flor comezinha
A que a rainha
De alma minha
Não se abeirou...

Débil flor tímida
— Quem assim vive? —
Tão  e tímida
A flor que eu tive
Na alma débil
Como foi flébil

Ó choro inútil
Ó desconsolo
Ó  dolo
Dum dia fútil
Chorando fútil
E sem consolo.

Nem sequer túmida
Desabrochou
Túmida ou húmida
Nem sequer túmida
Minha alma a achou
Minha alma húmida
Do que chorou...

Como se lúcido
Se me abandona
O amor só dor
E no pelúcido
Céu se me entrona
Chorosa e lúcida
Rainha e dona.

Como nocturna
E já sem gozo
Eu torno à urna
Aonde se inurna
A dor diurna
E taciturna
Do meu repouso...

Como sem gozo
Como o repouso
Vago e impreciso
Como o sorriso
Que eu me não ouso
Na alma tímida
Lívida e tímida
Fazer surgir.
A flauta débil
Débil e flébil
Na alma lívida
Que expira vívida
Fica a sorrir.


 espaço deixado em branco pelo autor.


[1909]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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