Oscila o insensório antigo
Em fendas e ouro ornamental.
Sem atenção, absorto sigo
Os passos lentos do ritual.

Mas são os braços invisíveis
E são os cantos que não são
E o incensório de outros níveis
Que vê e ouve o coração.

Ah, sempre que o ritual acerta
Seus passos e seus ritmos bem,
O ritual que não há desperta
E a alma e’ o que é, não o que tem.

Oscila o incensório visto,
Ouvidos cantos ‘stão no ar,
Mas o ritual a que eu assisto
É outro que este faz lembrar.’

No grande Templo antenatal,
Antes de vida e alma e Deus.
E o xadrez do chão ritual
É o que é hoje a terra e os céus...

22 - 9 - 1932

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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