Dorme, fluindo lentamente, a água,
Contudo dorme, fluida lentamente,
Como quem, porque vive, sente mágoa,
Mas, por cansado, sente que não sente.

As árvores e as ervas da ribeira
Vêem que corre a água adormecida,
E elas também, que um vento irreal peneira,
Dormem na paz anónima e tremida.

E eu, que ambas coisas perto de longe olho,
E nas mãos tenho as flores que colhi,
Lentamente as não vejo e as desfolho,
E tudo passa e trémulo sorri.

É um dia sucedente a outro dia,
É uma hora antes da hora que há a seguir.
Que voluntariamente o esqueceria
Se tivesse vontade de o fingir!

Ténue torvelinhar da água branda,
Vago murmúrio quase não ouvido
Das folhas trémulas, que Deusa anda
Tecendo em nós a iniciação do olvido?

 

18 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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