Não uma santa estética, como Santa Teresa, 
Não uma santa dos dogmas, 
Não uma santa. 
Mas uma santa humana, maluca e divina, 
Materna, agressivamente materna, 
Odiosa, como todas as santas, 
Persistente, com a loucura da santidade. 
Odeio-a e estou de cabeça descoberta 
E dou-lhe vivas sem saber porquê! 
Estupor americano aureolado de estrelas! 
Bruxa de boa intenção... 
Não lhe desfolhem rosas na campa, 
Mas louros, os louros da glória 
Façamos-lhe a glória e o insulto! 
Bebamos à saude da sua imortalidade 
Esse vinho forte de bêbados. 

Eu, que nunca fiz nada no mundo, 
Eu, que nunca soube querer nem saber, 
Eu, que fui sempre a ausência da minha vontade, 
Eu te saúdo, mãezinha maluca, sistema sentimental! 
Exemplar da aspiração humana! 
Maravilha do bom gesto, duma grande vontade! 
Minha Joana de Arc sem pátria! 
Minha Santa Teresa humana! 
Estúpida como todas as santas 
E militante como a alma que quer vencer o mundo! 
É no vinho que odiaste que deves ser saudada! 
É com brindes gritados chorando que te canonizaremos! 

Saudação de inimigo a inimigo! 
Eu, tantas vezes caindo de bêbado só por não querer sentir, 
Eu, embriagado tantas vezes, por não ter alma bastante, 
Eu, o teu contrário, 
Arranco a espada aos anjos, aos anjos que guardam o Éden, 
E ergo-a em êxtase, e grito ao teu nome. 


 

8 - 4 - 1930

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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