Fermosa mo que o corao me aperta,
se a vontade me tem em si sujeita:
esta to doce mostra contrafeita
quando ser que a veja clara e certa?

Meu repouso sonhando a dor desperta
inteira a pena; a glria imperfeita:
que v-la em sonhos eu que me aproveita,
se, quando acordado estou, me encoberta?

Manhosamente Amor me favorece
com mostras de algum bem, cheias de engano,
um bem que pouco dura e mais empece;

por que, tornando a vir o desengano,
acordando-me o mal que me adormece,
faa fugir o bem e dobre o dano.

Luís Vaz de Camões
[FERMOSA MÃO QUE O CORAÇÃO ME APERTA]
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