Música, ao contrário de tudo...
Cá fora a vida — noite e luar...
E eu, a ouvir e a sonhar,
O irmão ausente e mudo
De quanto amei e tive que deixar.

Sim, música, o cruel avesso,
Suave, contudo, de sentir
Que quanto mais eu quero ir
Para onde tudo vejo e esqueço,
Mais pesa em mim a ausência de o fruir...

Música, sim, música, um lago
Em silêncio sob o luar
E só o prazer de o olhar
Naquele vestígio de afago
Que do sentir faz modo de pensar...

Música, sempre música: dá
Mais que sentir ao coração...
Não me deixes só a emoção...
Nada há, nada há e nada há...

Dá-me um aceno que seja só perdão...
Música! E cessa porque tudo
Cessa... E há só a noite e o luar...
E eu, despertando de sonhar,
Jazo contemplativo e mudo,
E nem do que sonhei me sei lembrar.

 

6 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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