Ah o som de abanar o ferro da engomadeira 
À janela ao lado da minha infância debruçada! 
O som de estarem lavando a roupa no tanque! 
Todas estas coisas são, de qualquer modo, 
Parte do que sou. 
(Ó ama morta, que é do teu carinho grisalho?) 
Minha infância da altura da cara pouco acima da mesa... 
Minha mão gordinha pousada na borda da toalha que se enrodilhava. 
E eu olhava por cima do prato, nas pontas dos pés. 
(Hoje se me puser nas pontas dos pés, é só intelectualmente. 
E a mesa que tenho não tem toalha, nem quem lhe ponha toalha...) 
Estudei o fermento da falência 
Na demonologia da imaginação... 

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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