Pescador que recolhes a esta hora
Com vela firme sob um céu sereno
À tua aldeia de pescas, sob o aceno
Aéreo das estrelas que a noite ora
No teu barco antiquíssimo e pequeno...

Longe de mim não sei na Europa aonde
A paz do teu regresso de pescar
Chama por quanto no meu ser se esconde
De dor e mágoa, e em mim já se confunde
Com o desejo flor do meu penar...

E com uma furiosa raiva rude
Amaldiçoo não ser tu e os teus...
Não ter teu longe de mim, e a saúde
Que deve haver na tua □ virtude
De ser só pescador sob amplos céus.

Viril, sagaz a teu ingénuo modo,
Mas sobretudo longe de onde estou,
Vai para ti o meu anseio todo...
Ser um momento ao menos esse lodo
Ser quem tu és só pra ser quem não sou...

Viver à larga de pulmões e vista!
Correr perigos como quem só vive!
Não ser poeta, pensador, artista!
Empenhado somente na conquista

Ter na minha alma com que construir
Barco, vela, nocturna paz, e mar,
E, dentro em mim, feito tu só, partir...
Não sei o quê iria eu encontrar...
Que importa? Ah, não pensar e não sentir!

3 - 12 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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