Na tarde vaga e vasta,
       Cheia de vozes fora
Em que o humano contrasta
      Com o afago da hora,

Levanta-se de mim 
      Um arrepio da alma
Um mau-sossego afim
      A ter perdido a calma,

E a ânsia de abandonar
      Tudo quanto eu quis,
De ir para além do mar
      Sem lar nem país.

Sofre em mim um momento
      A dor de não poder ser.
Tenho no pensamento
      Não poder conviver.

E, gota a gota, um pranto
      Quasi sem causa afaga
O meu trémulo quebranto,
      E meu coração alaga.

Coração indeciso,
      Quem quis que tu vivesses?

14 - 5 - 1918

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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