No fundo de tudo quanto pensamos
Há a caverna do que nós vemos
Sonhos lhe bóiam na sombra aberta.
Uma árvore vela-a com rede-ramos
Terá de ramos luzindo pomos
Pomos-estrelas na noite deserta.

Por trás das costas do visto mundo
Por trás de nós se sonhamos ver,
Fogem de um onde ladeando estar,
Ramos sem sede cruzando o fundo
Do pensamento e caverna ser
Com sonhos boiando no cavernar.

Quadro — boiando do fundo da alma,
Com pomos luzindo na árvore-parte,
Com o segredo por trás de aquém...
Brilha um instante na luz sem calma
Como um relâmpago de ‘standarte,
E em tudo isto não há ninguém.

11 - 2 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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