Haverá, meu amor, ainda pássaros no céu 
entre aviões e aviões
crianças com o sorriso ao ombro
entre bombas e bombas?

Tão longe, 
podes imaginar, amor, desta ponta
da Europa 
aquela morgue 
onde morremos indefesos,
aquela invasão de bactérias, uma
putrefacção armada 
tentando impor a lei
a destruição à sua imagem?

Cai a tarde. O vento
anula o peso dos teus pés na areia
mas na tua cabeça
mantém-se a raiva, a pedra
em que ameaças transformar-te 
de impotência. 

O ódio que marca a tua cinta
é o Único remédio. Alimenta-o
em cada colher de sopa se não queres
ser apenas o gato, a rã, o mineral
cibernético 
que querem modelar no espaço do teu corpo. 

In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
VIETNAM
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